
Narizinhos... Não que não viesse aqui, hoje, particularmente, partilhar convosco a minha dor... Mas indigna-me querer fazê-lo num outro 'espaço' e não o poder. Nem falo do espaço físico, porque há um corpo que jaz longe de mim e que não poderei alcançar nestas 24 horas... Falo de um espaço virtual, no qual também alojei família e amigos e lhes dei um canto para estarmos juntos e agora vejo-me impossível de acessar, até mesmo para recuperar o conteúdo!! Isto... Inadmissível... E hoje, dói ainda mais!...
Não dá para esconder uma Lua triste, envergonhada, chorosa... Já repararam que, neste Céu, nem ela mesma aparece?
Sonho, talvez, que ela possa compartilhar um pouco da minha dor, da dor de nós, que o perdemos, tão violentamente, antes mesmo de o ter encontrado.
Tolanta é o meu Pai. Foi-o, vivo, durante 20 anos da sua vida.
Foi maioritariamente um Pai ausente, por circunstâncias infelizes da vida, mas foi um Pai muito exigente. Consigo mesmo. Com a família. Com o Mundo. Talvez isso o tivesse levado mais rapidamente de junto de nós.
Eu tenho alguma tendência para sentir as coisas em grande, para hiper-potenciar os sentimentos e acontecimentos. Frequentemente, acusam-me disso. No entanto, neste caso, não há como exagerar. Não se trata de mim. Trata-se do MEU PAI!! Trata-se do meu Pai que morreu, que nos deixou... Que nunca mais vou poder abraçar, beijar, ou a quem, simplesmente, não vou mais poder dizer "AMO-TE!" e esperar ouvir qualquer tipo de resposta da sua boca...
Deixou 4 filhos de coração, os quais amou o quanto pôde e soube em vida e, acredito, onde estiver, continuará a amar... e a reprovar as atitudes que tiver de reprovar... e a encorajar os comportamentos que achar que deve...
Deixou Mãe (terá reencontrado, ele, o seu próprio Pai??), Tias, irmãs, irmãos, sobrinhos, amigos e um país consternados com a sua partida... Poucos homens comuns poderão dizer que um país chorou a sua morte. O ser um país pequeno, creio, não lhe retira o mérito.
Mas, comum, é tudo o que o Tolanta nunca foi! Sagaz, audaz, INTELIGENTÍSSIMO, perspicaz, audacioso, vaidoso, elegante, engraçado, BONITO, amigo, polivalente, PAI, apaixonado, reservado, sensível, atento... E n mais qualidades... Também tinha defeitos, era casmurro, rezingão e autoritário, entre outros... Mas não é do que tratamos aqui hoje...
Sinto a falta dele, como a de ninguém mais. Amo outras pessoas, mas, felizmente, a maioria delas, encontra-se 'viva'... Tolanta, vive agora nos nossos afectos, daqueles que escolheram preservar a memória deste grande homem, que, por acaso, até era meu Pai!!
Para mim, não são apenas 4 anos de silêncio. Infelizmente, esta bruma é bem maior... Passa mais por uma vida de silêncios, em que, os poucos momentos em que nos fizémos ouvir um ao outro, não foram totalmente positivos. Mas, foram-no na sua maioria. Reservo para mim, pois, o que conversámos e para aqueles que assistiram às mesmas conversas, ou por qualquer de nós, vieram a saber os conteúdos.
No entanto, preocupam-me os silêncios. Pelo que se disse através deles, pelo que os causou, pelo que se seguiu a eles... E até pela simples necessidade de silêncios tão grandes. Como este. Sentir que ele 'morreu' para não viver. Propositadamente. Não sei o que isso diz de todos aqueles que o amávamos e daqueles de nós que não teremos chegado a tempo para salvá-lo da teia de solidão que construiu em torno de si mesmo. NÃO SE SUICIDOU. Mas deixou-se morrer, lentamente, ao longo dos anos, como se a morte pudesse até ser uma benção. Não a desejava, mas não a evitava... Caminhava para ela, como uma amante, em cujos braços pudesse finalmente repousar...
E gozava com a vida!! Com aqueles que faziam muito caso dela. Isto, um homem, que nos seus dias de jovem, viveu a vida em plenitude!!
Eu sei, eu sei o que aconteceu com o meu Pai!! Ele amadureceu demasiado cedo... Era um homem com um belo sorriso enigmático, mas com um ar extremamente grave e sério. Mas, às vezes, para provocar mesmo, a meio de uma conversa séria, picava onde sabia que doía mais, revirava o olhar maroto, ou piscava o olho, dava uma leve gargalhada quase sinistra, quase encolhia a cabeça dentro da gola da camisa... e esperava a tempestade da reacção... Ou então, mantendo a pose, defendia e inventava argumentos que faziam quem tinha a razão perdê-la, mesmo que não acreditasse naquilo que estava a dizer, apenas pela paixão da lógica argumentativa. Foi, também, pela lógica argumentativa que recebi o meu nome de baptismo.
Pai!! Sinto saudades tuas, sentimos saudades tuas... Não posso pedir-te que regresses e sinto isso como a maior das injustiças... Mas espero que haja um espaço onde nos reencontremos e possamos pôr fim a todo este silêncio...
Com todo o meu AMOR, hoje, vão todos para ti os
Mil beijinhos, Narizinho...
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